Por que, afinal, o terror atual importa?

Por que, afinal, o terror atual importa?

O terror atual é diferente em diversos aspectos do terror mais “antigo”. Filmes das décadas de 50, 60, 70 e 80 tem contextos completamente diversos, e é preciso se lembrar do quanto o contexto é importante para uma obra cultural, seja ela qual for.



Obs: Escrevi pensando no horror atual, mas é inegável que uma série de filmes de décadas anteriores também estavam preocupados com seus momentos, e não tenham sido tão bem recebidos. A ideia de pensar o atual, entretanto, é o crescente e absurdo descaso que os fãs do gênero tem com as novas tentativas. “Falta susto”, “falta sangue”, “falta bizarrice”: não, não falta. Não são somente esses elementos que constroem e fortalecem o terror.

Atualmente, uma leva do terror se distancia bastante do terror das décadas passadas. Já falei sobre o post-horror aqui, mas quero atentar para outro ponto importante, que não está somente ligada a esse subgênero, mas a alguns tantos outros filmes: essas obras, em uma grande maioria, tratam de subjetividades. Em grande parte, não estamos falando do gore escrachado ou de jumpscares  —  e não é como se houvesse algo de errado com esse tipo de terror também, e muito menos dizendo que quem aproveita desse tipo de terror seja melhor ou mais inteligente — , estamos falando de filmes que utilizam do amparo do gênero terror e seus elementos para trabalharem questões mais profundas, como transtornos e doenças, e, claro, medos. Algo até bastante comum em filmes de suspense ou thriller, mas quando tratados pela visão do terror, é comum ouvirmos que o filme é ruim, ou que não pode ser considerado terror, ou qualquer coisa dessas.

Uma grande parcela da população pode não ver nada de importante nesses filmes. Get Out, Raw, The Babadook, e alguns outros, podem ser só filmes chatos e sem nada a acrescentar a eles. Mas gostaria de fazer algumas observações sobre o gênero.

O que pode ser considerado terror, afinal?

Noel Carroll, em Filosofia do Horror ou Paradoxos do Coração, escreve que o terror, assim como o suspense e o mistério, são gêneros que tem seus nomes derivados dos afetos que eles provocam. Citando-o:

Assim, pode-se esperar situar o gênero do horror, em parte, por meio de uma especificação do horror artístico, ou seja, da emoção que as obras desse tipo são destinadas a gerar. Os membros do gênero do horror serão identificados como narrativas e/ou imagens (no caso das belas-artes, do cinema etc) que tem como base provocar afeto de horror no público.

Ao longo de seu livro, Carroll busca esclarecer algumas questões teóricas sobre o horror, e apesar de não concordar com determinadas partes, acho acertado quando ele demonstra que o sentimento e a emoção, afinal, estão ligados diretamente ao terror.

O que pode parecer uma coisa bastante simples, mas que parte do público ignora.

O terror se consagrou como gênero no início do século XIX. Anterior a isso haviam outros nomes para essas narrativas, essas com a intenção de produzir e evocar medo; e a própria nomenclatura de “terror” surgiu depois. Mas o gênero mesmo, e a forma como ele é pensado, foi nessa época, se utilizando de elementos de sucesso de obras góticas, mas com ideais diferentes.

É um erro achar que o terror não tem sua intenção política e social, seja o horror atual ou não. Toda obra, na verdade, é feita a partir de um criador que possui visões e interesses e quer representar alguma coisa, consciente ou inconscientemente. Retirar o valor político dessas obras e decidir pensar que tais escolhas são puramente para entretenimento é perder grande parte do que se pode concluir delas. Se você prefere não compreende-las e ignorá-las, afinal, não há o que fazer, mas negá-las é complicado. Essas questões estão ali, e muitas das vezes são expostas diretamente na nossa cara.

Mas e o terror, qual é seu propósito?

Depende. Depende muito.

Stephen King afirmou uma vez — e eu gosto muito dessa afirmação, pois foi dela que eu tirei grande parte da vontade de estudar o terror — que o escritor de terror é um agente da norma. A partir disso podemos, então, nos lembrar de diversas obras de terror (sobretudo as do século XIX), que tem personagens degenerados, com um plano maligno, mas, em contrapartida, possuem heróis exemplares (alô, Bram Stoker, eu to falando com você!). Ainda que pensemos mais recentemente, com a leva das final girls (que eu também já mencionei aqui), estamos falando de mulheres virginais que não saem do que era esperado pela sociedade.

Por outro lado, temos uma espécie de terror subversivo, que acaba indo contra todos esses princípios de “normatizações sociais”, onde a mocinha não é a heroína virginal e o herói também não é exemplar, não cumprindo exatamente o que se espera dele. Talvez o Night of the Living Dead seja um dos exemplos mais antigos, e George Romero seja um marco do cinema que exemplifica muito bem o que eu estou falando, tendo colocado um protagonista negro para lutar contra zumbis.

São duas correntes que parecem opostas mas que flertam frequentemente entre si. Muitas vezes um filme de terror que tenta ser subversivo acaba sendo repressivo, e vice-versa. Mas o que importa nisso tudo é que o terror tem sim um propósito social e/ou político, e nem sempre é somente divertir ou assustar. Em grandes partes das vezes, ele está ali pra cumprir um papel. Pense, talvez, nos contos de fadas contados ao redor das fogueiras: seja para te prevenir dos monstros, ou prevenir os monstros de você — uma forma de empoderar a vítima, talvez, como no caso de Pânico — , o terror tem um porquê.

Tendo isso em mente, agora vou falar um pouco mais do terror atual.

Talvez, se você conseguir ignorar todo o contexto social, político e cultural, você deve se perguntar “por que Get Out deveria ser um filme tão importante? não vi nada demais”. A história de Get Out, brevemente e com spoiler, é de que um negro vai passar o final de semana na casa da família da namorada, que é toda branca, e só tem amigos brancos, e acaba se vendo em uma enrascada ao constatar que aquela família tá tentando fazer um tipo de lavagem cerebral nele, mostrando uma enorme aversão a negros. Se até aí você não conseguiu perceber uma importância nem que seja de leve no filme, bom, daí tudo bem, talvez seja uma escolha sua. Mas nesse momento atual, de efervescência de preconceitos de todos os tipos, um filme desse levanta uma série de questões. Se nós pensarmos na definição de Noel Carroll, veremos que Get Out nos traz o sentimento do medo, ele provoca o horror ao público.

Isso não se aplica somente a Get Out. “O que Raw tem de tão inteligente assim?” Não é por ser inteligente, é pelo que ele representa. É a história de uma garota que entra pra faculdade e descobre não só um mundo novo ao ingerir carne pela primeira vez, sendo de uma família completamente vegetariana, mas que descobre coisas sobre si mesma, com uma série de metáforas com o canibalismo. Compreender a importância desse tipo de tema não te torna mais inteligente, mas talvez perceber essa representação te torne um pouco mais empático.

Before I Wake trata da perda pelo câncer de uma forma muito interessante. The Babadook fala muito sobre a depressão de uma mãe viúva. Tantos outros filmes de terror desses últimos anos falam sobre as dificuldades de inserção na sociedade, sobre transtornos mentais e fobias. Sobre medos atuais, sobre dificuldades de viver na sociedade atual.

Ninguém é obrigado a gostar de nada, e questionar as coisas é sempre muito importante. Mas questionamento é bastante diferente de negar a qualidade da obra, principalmente e somente porque a obra não trabalha com seus medos. Não são os seus, mas são de outras pessoas.

O terror é um gênero incrível que se reinventa a medida que seja necessário. Ele pode conter uma série de elementos que se repetem, mas ele dificilmente vai permanecer com os mesmos sentidos. Infelizmente, é um gênero subestimado, e quase nunca levado a sério. Apesar de uma reutilização frequente de determinados tropes no terror, estamos vivendo uma época de pluralidade. Se aprendermos a compreender que os medos e horrores são plurais tal qual como as pessoas são, talvez vamos aprender a experimentar o horror e o terror com uma mente mais aberta, e até abrir nossos olhos para outras situações, de outras pessoas.

Jéssica Reinaldo

Jéssica Reinaldo

Formada em História, escreve e pesquisa sobre terror. Tem um afeto especial por filmes dos anos 1980, vampiros do século XIX e ler acompanhada de um café quentinho. Siga nas redes: Twitter | Facebook | Instagram

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